Com 54 milhões de brasileiros acima de 50 anos, incorporadoras passam a desenhar imóveis, serviços e áreas comuns para o segmento.
O envelhecimento da população começa a redesenhar o mercado imobiliário brasileiro, destaca reportagem da Folha. Depois de décadas com foco em famílias com filhos pequenos, incorporadoras passam a desenvolver apartamentos, condomínios e serviços para pessoas de 50, 60 e 70 anos que querem manter independência, segurança e vida social.
A tendência conhecida como aging in place valoriza a possibilidade de envelhecer na própria casa, com suporte adequado e rotina mais simples. Com famílias menores, mais divórcios e maior expectativa de vida, cresce o número de pessoas que repensam onde e como querem morar nas próximas décadas.
Autonomia vale tanto quanto metragem
Nos projetos voltados à longevidade, a localização e o desenho do imóvel ganham novos critérios. A proximidade de hospitais, farmácias, parques, comércio e serviços passa a pesar tanto quanto a área privativa.
Escadas cedem espaço a ambientes integrados, e áreas de lazer tradicionais dividem espaço com sensores de monitoramento, tecnologias de detecção de queda, áreas de convivência e ambientes de estímulo cognitivo.
Para Norton Mello, engenheiro civil especializado em longevidade, à Folha, o erro é reduzir esse mercado a barras de apoio e corredores mais largos. O objetivo, afirma, é permitir que a pessoa precise de menos cuidados por mais tempo.
Demanda existe, mas preço limita acesso
Cerca de 54 milhões de brasileiros têm mais de 50 anos e movimentam aproximadamente R$ 1,8 trilhão por ano. Levantamento da Brain Inteligência Estratégica, em parceria com a Caio Calfat Real Estate Consulting, mostra que 37% dos entrevistados têm interesse em morar ou investir em empreendimentos para o público maduro.
A saúde aparece como principal preocupação para metade dos entrevistados, enquanto 26% citam a dependência de cuidadores. Apenas 12% cogitam viver em instituições especializadas. O obstáculo é o custo: segundo Mello, só entre 1% e 4% dos brasileiros têm hoje condições financeiras de trocar a moradia atual por um empreendimento planejado para a longevidade.
Unidades podem custar até 40% mais
Os diferenciais de área privativa, espaços comuns e serviços elevam o metro quadrado entre 20% e 40% sobre imóveis de padrão semelhante nas mesmas regiões. Mesmo restrito às faixas de maior renda, o potencial é expressivo. Mello estima déficit de 600 mil a 1,2 milhão de moradias voltadas à longevidade no país.
A cidade de São Paulo e sua região metropolitana concentrariam demanda reprimida superior a 250 mil unidades. O financiamento também impõe barreiras, porque bancos reduzem prazos para compradores acima de 50 anos devido ao seguro habitacional obrigatório, que costuma limitar a soma entre idade e prazo do contrato a 80 anos e seis meses.
Brasil ainda amadurece o conceito
São Paulo, Curitiba e Porto Alegre lideram a expansão de projetos para longevidade, com opções que vão de apartamentos compactos tecnológicos a unidades de luxo integradas a centros de saúde. Ainda assim, o país está distante de mercados como Estados Unidos, Canadá, Austrália e parte da Europa, onde empreendimentos voltados ao público maduro já fazem parte da paisagem urbana.
Daline Moura Hällbom, CEO da Söderhem, avalia que o Brasil ainda mistura conceitos e precisa diferenciar moradia independente de instituições de cuidado. Para ela, há uma população ativa, saudável e cansada de ser tratada como adolescente ou como idosa.
Fonte: https://portas.com.br/
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